aeroporto-guarulhos-malasAlgo que passou a ser observado, é que muitos brasileiros que deixaram o país, ao retornarem, estão sofrendo de depressão, crises de pânico e falta de estímulo. É a chamada Síndrome do Regresso. Mas que síndrome é essa? O termo foi batizado pelo neuropsiquiatra Décio Nakagawa, que morreu em 2011 e estudava a frustração de brasileiros que voltavam ao país após uma temporada de trabalho em fábricas japonesas, por exemplo. A psicóloga Kyoko Nakagawa, viúva do psiquiatra e coordenadora do projeto Kaeru, de reintegração de crianças que voltam do Japão, fala sobre a síndrome: “A adaptação em um país diferente acontece em seis meses, já a readaptação ao país de origem demora dois anos. Ao sair do Brasil, o cidadão que busca uma vida lá fora começa a estudar a língua, a cultura do país e sente-se mais próximo da natureza corriqueira e diária para o país que está embarcando. Porém, ao regressar, depois de algum tempo fora, o indivíduo pode apresentar sinais de frustração.

“Muitas pessoas que fazem intercâmbio reclamam de choque cultural reverso e depressão pós-retorno. Voltar ao seu país de origem faz parecer até que você voltou no tempo e ver que tudo continua igual dá uma certa angústia. Você ficou tanto tempo fora, conseguiu tantas experiências novas, conhece tanta coisa que nem pensava em conhecer e tudo continua igual aqui? O tempo parou? As pessoas continuaram vivendo suas vidas e se acostumaram a não ter você ao redor, então quando você volta você não os vê como imaginaria. No início você encontra um pessoal, conta como foi sua viagem, mas as conversas mais profundas só acontecem com quem já teve uma experiência similar e já viajou pro exterior. De resto, as conversas são sempre as mesmas: ‘como foi lá?’ ‘me diz tudo!’ ‘qual é seu lugar preferido?’ e pra quem viajou, essas perguntas são muito difíceis. Como vou resumir em 5 minutos qualquer uma dessas perguntas? Viajei para tantos lugares diferentes que é impossível falar qual é meu lugar favorito. Te dizer tudo? Senta aí que daqui a 1 ano eu termino. As conversas parecem ter se tornado algo superficial. Tudo aquilo que eu vivi, toda a minha rotina no Japão é uma outra vida. Ninguém aqui sabe de nada e não adianta falar sobre alguma coisa de lá porque não vai ter uma ligação entre essa pessoa e aquela experiência. Não tenho mais a discussão que eu tinha com meus amigos de lá. Não posso mais comentar ‘pô, isso me lembra àquele dia que a gente foi pra Shinsaibashi e viu aquela estátua’. Passando-se dois meses as pessoas já não querem mais te ouvir falar da sua viagem. Na real, depois de um mês já cansei de ter que falar da viagem. Mas, na minha cabeça, é inevitável fazer comparações. E eu sei que não estou sozinha.”  (Rafaela, 24 anos, em um desabafo em seu blog)

regressoQuando está no exterior, onde viveu por anos, o emigrante pensa várias vezes em voltar ao Brasil. Ele acha as pessoas muito frias e indiferentes por lá. Isso faz ele se sentir solitário, tem saudade dos amigos e da família. Ao voltar para sua cidade-natal, as coisas não saem como ele planejava. Manteve bom relacionamento com a família e os amigos, mas percebe que ele mesmo tinha mudado bastante, enquanto as pessoas que conviviam com ele, aparentemente, continuavam iguais. Mas o que mais lhe incomoda é a questão da carreira: ele se superestima e acha que no Brasil não há valorização de profissionais qualificados. As empresas preferem pagar menos para qualquer um. Após ter estudado e trabalhado no exterior, tem dificuldade para se recolocar no mercado. Espera salário melhor, que nunca vem. Essa é a “síndrome do tapete vermelho”: achava que seria super-bem recebido, profissionalmente, e constata não ter nenhum networking naquele mercado de trabalho. Fica deprimido e passa a sofrer de insônia – “por causa da diferença de fusos horários” já que ainda espiritualmente lá fora. Um ano depois de ter voltado, ainda não se adaptou, pessoalmente, nem conseguiu organizar sua vida profissional. Fica avaliando a possibilidade de ir embora novamente, dessa vez para sempre. Nostalgia, perda de liberdade, frustração e decepção com o próprio país são alguns motivos que levam à síndrome do regresso, cujo sintoma mais comum é a aparente recusa em viver no presente. Sem tornar-se presente, vive com a memória do passado ou com o sonho do futuro. Enquanto mora fora, a pessoa emigrante tende a idealizar a própria terra. A nostalgia a fez esquecer dos problemas da terra-natal. Alguns buscam nova rota-de-fuga, reconhecendo a incapacidade de se readaptar a sua origem. Arranja-se “bode-expiatório” para responsabilizar como a causa do problema. Por exemplo, dado o choque de realidade ao voltar de país com maior segurança pública, o ex-emigrante fica meses sem sair à noite. Justifica-se que está com síndrome de pânico. Após anos no exterior e sobrevivendo com trabalho manual, isto é, prestação de serviço doméstico, aqui não se dispõe a continuar com essa carreira profissional por causa do status social. “Aqui você só é valorizado se tem um trabalho considerado bom, de ‘classe média’. Lá ninguém se importa se você é operária ou professora”. Muitas vezes, os amigos que acreditam estar ajudando, ao convidar o recém-chegado para festas e tudo mais, na verdade, pode causar ainda mais depressão em quem voltou de viagem de outro país. A pressão que é feita para a diversão, põe em choque os reais sentimentos da pessoa, do que ela deixou para trás e da vida que levava. A família também é muito importante no processo de readaptação, pois, geralmente, quem retornou de viagem tende a reclamar mais e os parentes passam a não ter paciência ou pouco interesse nos assuntos de viagem. Mais do que paciência, é necessário uma boa interação e interesse naquilo que o viajante viveu fora do seu país. Tirando vantagens e não somente comparando, mas estimulando que as diferenças fazem parte e de que a vida continua para cada um, de forma singular e, o que fazemos no presente e dali para frente é que terá um novo significado nessa nova etapa da vida.

 

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